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O RPG como fuga da realidade

Estamos sempre falando dos benefícios do RPG, e eles são inúmeros. Vão de alívio de estresse a construção de novas competências sociais. Entretanto, o jogo pode ser utilizado como uma forma de escaparmos negativamente de nossa realidade, quer por estarmos passando por momentos difíceis ou até mesmo por vivermos num ambiente hostil. Não estou aqui advogando contra o RPG, mas sim alertando para um possível comportamento não assertivo que pode eclipsar os benefícios que ele traz.


Tudo começa com o que os teóricos do comportamento chamam de Comportamento de Fuga e Esquiva. Este é uma resposta comum em situações de estresse ou perigo que os indivíduos usam para se proteger de uma ameaça percebida ou real. Num processo evolutivo essa estratégia foi muito bem reforçada por manter viva a espécie. Vivíamos em um ambiente mais inóspito onde poderíamos virar facilmente presas de um predador mais forte, comer algo venenoso ou simplesmente dormir em um local perigoso. Por isso precisávamos estar atentos e alerta a sinais de perigo, onde fugir de uma ameaça que se apresentava ou perceber uma potencial ameaça e se esquivar antes era primordial para se manter vivo.



Porém, hoje em dia não há esse perigo iminente de morte que espreita qualquer descuido e a hostilidade do nosso ambiente se dá de outras maneiras: um lar abusivo, forte cobrança pessoal, produtividade excessiva, padrões de beleza inalcançáveis, ansiedade generalizada, depressão etc. A hiper estimulação a que estamos expostos faz com que a estratégia de Fuga e Esquiva, utilizada por nossos antepassados e muito bem reforçada através de anos, permaneça ativa o tempo todo gerando tensão e estresse.


Dentro desta equação o RPG entra como uma das várias formas de fugir dos problemas a que estamos expostos. Por exemplo, um jogador que esteja enfrentando dificuldades em relacionamentos ou trabalho pode se tornar excessivamente envolvido em um jogo de RPG, evitando enfrentar os desafios reais da vida e se escondendo em um mundo imaginário em que pode ser bem sucedido e ter controle sobre a situação. Em alguns casos, isso pode levar a um comportamento obsessivo em relação ao jogo, em que o jogador se recusa a sair do mundo imaginário e enfrentar a realidade, podendo causar prejuízos em sua vida pessoal, social e profissional.


Explorar memórias perdidas, enfrentar pesadelos, fazer raid em dungeon e contar boas histórias é muito gostoso. Mas se eu não consigo me destacar do mundo imaginário que vivo, as habilidades que irei criar ficarão restritas apenas a esse mundo. O que posso aprender de ferramentas in game PRECISA ser transposto para nossa vida. A melhora do repertório de enfrentamento só ocorre quando eu encaro o problema de frente e encontro soluções. Não há monstros invencíveis, no jogo ou na vida real, temos de entender qual a forma de enfrentá-lo e criar ferramentas para conseguir. Pois segundo o major Alan Schaeffer: “Se ele sangra, podemos matá-lo!.”.



Texto escrito por Carlos Alberto de C. F. Rodrigues, Psicólogo (CRP16/3101).

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